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Meus Rabiscos
11/09/2026 às 19h25min - Atualizada em 11/09/2026 às 19h25min
Nelson BANDEIRA NETO é cronista e funcionário do SESI-Serviço Social da Indústria, ex-vereador por Imperatriz (MA)
PROPAGANDA ELEITORAL ENFADONHA
POLÍTICA: MENOS HISTÓRIAS, MAIS COMPROMISSO
A cada quatro anos, o Brasil assiste ao mesmo ritual: candidatos aparecem na propaganda eleitoral contando suas histórias de vida como se a própria biografia fosse credencial suficiente para conquistar o voto.
Nada há de errado em alguém ter sido engraxate, mecânico, gari, vendedor ambulante ou exercer qualquer profissão digna. Tampouco a pouca formação acadêmica desqualifica alguém para a política. A questão é outra: qual é a capacidade, o compromisso e, principalmente, quais são as propostas de quem pretende representar a sociedade?
O eleitor não escolhe um candidato para premiar sua trajetória pessoal. Concede-lhe poder para legislar, fiscalizar, administrar recursos públicos e defender os interesses da população. Por isso, mais importante do que saber de onde o candidato veio é saber para onde pretende levar o mandato.
O problema é que alguns parecem enxergar a política como profissão permanente e o mandato como um negócio conveniente. Promessas emocionais, favores ocasionais e reaparecimentos a cada quatro anos continuam substituindo projetos consistentes para saúde, educação, infraestrutura, emprego e desenvolvimento.
As emendas parlamentares, embora legítimas, também não podem ser apresentadas como finalidade maior de um mandato. Quando deixam de atender ao interesse público para alimentar relações políticas pouco transparentes, transformam-se em combustível da velha politicagem.
IMPERATRIZ E A FALTA DE LIDERANÇA
Imperatriz continua padecendo de uma carência antiga: liderança capaz de reunir forças políticas, empresariais, comunitárias e institucionais em torno de um projeto de cidade. Como costuma dizer o Rabisco, falta liderança “nem que seja de santo”.
Também é preciso romper com a cultura do assistencialismo eleitoral. Benefício público é direito de quem necessita, não favor de político. Quem recebe mandato deve prestar contas permanentemente à sociedade, e não desaparecer para reaparecer na eleição seguinte.
As próprias instituições representativas precisam superar vaidades, divergências pessoais e interesses particulares. Imperatriz necessita transformar indignação individual em força coletiva, colocando os interesses da cidade acima das disputas de grupos.
QUANDO A FÉ VIRA INSTRUMENTO ELEITORAL
Outro fenômeno preocupante é o uso da identidade religiosa como credencial política. O problema não está em evangélicos, católicos ou integrantes de qualquer religião disputarem eleições. O risco surge quando a fé passa a ser utilizada como instrumento de convencimento eleitoral.
Púlpitos não deveriam servir de palanque, nem fiéis serem tratados como “quota eleitoral”. Quando isso acontece, a lógica se inverte: em vez de a fé oferecer referências éticas à política, a política passa a instrumentalizar a fé em benefício do poder.
O PODER E AS CONVENIÊNCIAS
A política também revela como o poder pode modificar comportamentos, amizades e princípios. Em períodos eleitorais, alianças são desfeitas, adversários viram aliados e compromissos são esquecidos com impressionante facilidade.
É claro que existem políticos sérios e comprometidos. Mas oportunismos, traições e interesses particulares frequentemente encobrem aqueles que procuram exercer o mandato com dignidade.
Para alguns, a política deixou de ser compromisso com a sociedade e virou um permanente jogo de conveniências.
IMPERATRIZ PRECISA SABER PARA ONDE VAI
É diante desse verdadeiro portfólio da politicagem que o Rabisco observa o futuro de Imperatriz.
Já não convence o velho discurso de todo novo governante de que “recebeu a cidade destruída”. Quem pede o voto sabe — ou deveria saber — que receberá a administração com seus avanços, dívidas, obras e problemas. Quem pede o voto também assume a responsabilidade de enfrentar aquilo que encontrar.
Da mesma forma, a máquina pública não pode servir para pagar dívidas políticas de campanha, acomodando aliados e grupos em cargos administrativos. Governar exige independência, inclusive para dizer “não” aos próprios aliados.
Imperatriz precisa de gestão, planejamento, liderança, transparência e coragem. Precisa cobrar resultados de quem governa hoje, em vez de aceitar eternamente desculpas sobre quem governou ontem.
A cidade já teve, no final da década de 1940, prefeito que, após concluir uma obra pública, devolveu aos cofres estaduais o dinheiro que havia sobrado.
Isso não deveria ser tratado como heroísmo. Dinheiro público pertence ao povo. Honestidade não é favor, medalha nem motivo para canonizar político. É obrigação.
Chega, portanto, da velha retórica política dos “coitadinhos”. Quem assume o leme de uma cidade precisa saber aonde quer chegar e, sobretudo, ter coragem para remar contra a maré das conveniências políticas sempre que o interesse coletivo assim exigir.
Como dizem os grandes arquitetos, toda obra que simboliza progresso precisa nascer de um grande projeto. Com Imperatriz não pode ser diferente.
A cidade precisa superar a política dos “coitadinhos”. A disputa por cargos públicos deve ser pautada por propostas, projetos e competência — e não por currículos de humildade, sofrimento ou histórias pessoais usadas como credenciais eleitorais.
Governar exige muito mais do que despertar comoção: exige capacidade administrativa, conhecimento técnico, visão de futuro e coragem para fazer Imperatriz avançar para além de seus próprios muros.
Deus seja louvado!
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